quarta-feira, 4 de novembro de 2015
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Planeta Azul
Fonte - http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2015/329/planeta-azul-quando-o-sol-ilumina-ceu-e-mar

Predomínio da cor azul no planeta é resultado das interações entre radiação solar e matérias constituintes da Terra. (foto: MR/FreeImages)
A cor é uma sensação produzida após a entrada de luz em nossos olhos. A modificação da luz solar por interação com a matéria à nossa volta (atmosfera, solo, objetos, plantas, animais, elementos das paisagens) faz com que ela adquira características particulares que produzem em nós a sensação de cores diferentes. Em realidade, não só a cor em si, mas também o brilho, o contraste, a intensidade e outras características associadas. Porém, vamos deter-nos na cor.
A abordagem mais simples ao fenômeno da cor baseia-se apenas na frequência da radiação que lhe dá origem. Para muitas aplicações práticas, a radiação pode ser descrita como um campo magnético e um campo elétrico perpendiculares e oscilantes. É ao campo elétrico de parte dessa radiação que podemos atribuir a responsabilidade pela percepção da cor.
A radiação visível de maior frequência é percebida em nosso cérebro como azul (anil/violeta, no limite), enquanto a de menor frequência, como vermelho. Entre esses extremos, temos a mesma paleta que nos oferece o arco-íris, com verde, amarelo e laranja. Misturando radiações de frequências diferentes, percebemos a cor resultante dessa mistura e, desse modo, temos à disposição uma gama de cores incrível, para tornar as paisagens naturais um fascínio cromático.

- A fração visível do espectro eletromagnético é pequena se comparada com toda a gama de radiação disponível. (arte: Luiz Baltar)
É interessante notarmos que a gama de radiações conhecida excede em muito as frequências associadas às cores. Em realidade, frequências maiores do espectro eletromagnético (ultravioleta, raios X e raios gama) correspondem a energias mais altas, capazes de quebrar ligações químicas de nosso material genético (DNA) e, assim, provocar danos nas células e nos tecidos, podendo levar à formação de tumores. No entanto, não lhes fazemos corresponder quaisquer sensações. Já as frequências menores, quando próximas da frequência do vermelho, levam à sensação de calor, mas também não lhes associamos cores.
A radiação visível de maior frequência é percebida em nosso cérebro como azul, enquanto a de menor frequência, como vermelho
A radiação de que os nossos olhos tiram partido – que suscita o sentido da visão e, por isso, chamamos visível – é simplesmente aquela que mais abunda na superfície terrestre, conseguindo penetrar na água, vinda da maior fonte de radiação a que a Terra se expõe: o Sol. Afinal, evoluímos para usar a radiação mais abundante à nossa volta.De fato, a fração visível do espectro eletromagnético é pequena se comparada com toda a gama de radiação disponível para uso prático. A especialização dos olhos em uma fração tão estreita do espectro eletromagnético parece, à primeira vista, um desperdício sem sentido. Mas não é bem assim: os olhos evoluíram naturalmente, segundo os princípios darwinistas habituais de adaptação aos recursos disponíveis.
Prismas, diamantes e céu
Como dito antes, a percepção da cor é dada como resultado da combinação da radiação que chega a nossos olhos. Quando se trata de luz vinda de uma fonte luminosa direta, a situação é simples. No entanto, a radiação pode sofrer transformações quando incide sobre a matéria que compõe nosso ambiente. Ela pode ser absorvida por determinados materiais, refletida ou ‘desviada’ (refratada). Talvez um dos exemplos de refração mais conhecidos seja o da luz solar passando através de um prisma de vidro e sendo ‘decomposta’ por este. No caso, as cores separam-se de forma clara, pelo fato de a radiação ter, no novo meio (vidro), um desvio que depende de sua frequência, o que faz com que diferentes cores emanem do prisma com ângulos diferentes.
Um fenômeno igualmente fascinante, mas que envolve tanto reflexão quanto refração, é a passagem da luz por um diamante com a lapidação na forma de brilhante. Se a pedra for de boa qualidade, nenhuma radiação visível é absorvida – isto é, o diamante é de uma transparência pura –, e as medidas e os ângulos dos cortes são tais que a luz que entra nele é desviada e refletida para ser devolvida pelo topo, causando a sensação de brilho e luminosidade.

- Ao penetrar a atmosfera, os raios solares são espalhados, desviados de sua trajetória original, como resultado das colisões com as moléculas de ar. (arte: Luiz Baltar)
Estruturas cristalinas como as safiras têm compostos de íons metálicos em seu interior, ausentes nos diamantes, estes contendo apenas carbono. Esses compostos absorvem as radiações com frequências específicas. Assim, ‘sobram’, para a reflexão e refração, as restantes frequências, que emanam da pedra e chegam a nossos olhos. Como resultado, as safiras podem ser de um verde ou azul deslumbrantes.
O azul do céu – também ele esplendoroso – pode ser explicado de forma semelhante. Ao penetrar a atmosfera, os raios solares são espalhados, desviados de sua trajetória original, como resultado das colisões com as moléculas de ar. O espalhamento da radiação azul – por conta de sua frequência mais alta – é mais pronunciado do que o do restante da radiação, fazendo dessa cor a dominante no meio. É isso que nos faz perceber o céu diurno como azul.
O boi no poder!
fonte - http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/o-boi-no-poder
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina. (foto: Secretaria de Agricultura e Abastecimento / Flickr / CC BY 2.0)
Em contraponto involuntário, mas oportuno com a coluna quase otimista do mês passado, hoje abordaremos a pegada ecológica de Vossa Excelência, o Boi. Sim, Excelência e Boi, com maiúsculas. Sejamos justos, a Cesar o que é de César: desde 22 de abril de 1500, a pecuária molda as relações do Brasil com seu território e, portanto, molda também a vida politica do pais. Quem é Excelência tem boi, e quem tem boi vira Excelência. Ou Coronel. Ou ambos, sem preconceito. A faixa presidencial no Brasil já afagou ternos, fardas e até vestidos, mas sua Excelência, o Boi, nunca perdeu a majestade.
Aliás, desde criancinha eu me perguntava como era possível criar tanto boi sem a presença de vacas. Cheguei a cogitar a hipótese de que se tratava, na verdade, de espécies diferentes. Pense bem, no restaurante a carne bovina é apresentada como de Boi. Na bolsa de valores, a cotação se refere à arroba do Boi. E fulano faz o que da vida? Ele cria Boi. Vai ver virei biólogo para isso: resolver o mistério da autoperpetuação do Boi sem a colaboração aparente de sua cara-metade. Hoje, já entendi que a questão não é biológica, e sim cultural – quem é sexista é o dono do Boi e não o inocente herbívoro.
Num fatídico dia de 1963, acompanhei meu tio paterno, veterinário e morador de Uberlândia (MG), aos confins de Goiás, onde tinha um serviço a prestar. Foi meu primeiro contato direto com o mundo real da pecuária. Eu tinha oito anos. O que guardei da experiência?
* As exuberantes fauna e flora, e o frescor das áreas de mata que não haviam sido ainda derrubadas para formação de novos pastos;
* a monotonia e o calor das pastagens;
* a desproporção brutal entre Bois e homens, com muitos dos primeiros e poucos dos segundos;
* o olhar sempre baixo dos peões, embora estivessem sobre cavalos;
* as evasivas quando eu perguntava ao meu tio ou ao seu contratante onde eles dormem, onde estão as famílias deles, onde eles ficam quando chove, quando termina o trabalho do dia; e
* (o que mais me surpreendeu e marcou) a ausência da carne nas refeições daqueles que lidam com toneladas da mesma o dia inteiro.
Naturalmente, eu ainda não havia lido Casa grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Mas foi um resumo inesquecível. Monocultura, escravidão, patriarcalismo, estava tudo ali, pulsando de contradições bem na minha cara. Conclusão: pense bem antes de levar um sobrinho ao trabalho, ele pode acabar virando colunista da CH On-line.

- Quando os solos são pobres e as pastagens não se regeneram, a saída é expandir ainda mais os pastos, o que implica, claro, desmatamento. (foto: Angel / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)
Pecuária em solos pobres
Nada disso impediu que a pecuária fizesse do Brasil o maior exportador de carne bovina do mundo, meio século depois. Antes de cantar o hino nacional brandindo um espeto de churrasco, uma perguntinha: como foi possível?
Sim, porque os solos brasileiros são pobres de marré-deci, como a maioria dos solos tropicais que não tenham um delta de rio ou um vulcão à mão para garantir fertilização natural periódica. São solos muito antigos. Enquanto o solo europeu e norte-americano dormia o sono dos justos sob espessas camadas de gelo, preservando seu precioso carbono orgânico, nutrientes etc., o solo tropical já penava sob a intempérie.
Chuvas torrenciais e calores escaldantes lavaram carbono e nutrientes por milhões de anos. A corrida só equilibrou um pouco há cerca de 10 mil anos, quando o gelo recuou para os polos, onde hoje aguarda resignado a extrema-unção, e os solos de áreas temperadas passaram a ficar expostos, eles também, aos rigores do clima e do homem. Com isso, os solos temperados passaram a perder massa e fertilidade, e os tropicais continuaram a fazer o mesmo, como vinham fazendo há tempos.
A resposta ao mistério do boi gordo em ambiente magro é simples: se a fertilidade é baixa, aumente a área. Suas pastagens estão degradadas? Desmate e faça novas pastagens, e vamos em frente que atrás vem gente. O problema é que pela frente vem gente também, fazendo o mesmo, e acabam se encontrando. Acabou o tempo da fronteira pioneira que se expande sem fim. O planeta é finito, e c’est fini. Baixa eficiência compensada com novo desmatamento já deu o que tinha que dar.
Onde havia extensões sem fim de mata atlântica com suas fontes e regatos murmurantes, índios, aves e onças, há hoje o tédio das colinas de pasto inútil e sem fim, entrecortado por um condomínio aqui, uma fábrica ali
Vejamos. O Brasil tem 207 milhões de cidadãos e 212 milhões de Bois (e Vacas). Se o país desistisse da pecuária e distribuísse o rebanho entre seus habitantes, cada cidadão receberia 1,024 Boi ou Vaca. De início, isso aumentaria as emissões de carbono, devido ao pico de aquisição de freezers e ao aumento insano na frequência e intensidade de churrascos na laje, na varanda e no quintal, sem falar na falência das churrascarias rodízio. Mas, a médio prazo, não seria um mau negócio.
Surpreso, caro(a) leitor(a)? Pois não devia, é física pura. Boi requer pasto, muito pasto, e água, muita água. Pasto compete com floresta. Sem floresta, há menos água e menos chuva. Com menos água, a luz fica mais cara, a vida, mais escura, sofrida e incerta. Sua Excelência, o Boi (e sua sombra, a Vaca) tem quatro patas, mas centenas de quilos. Pisoteia e compacta o solo, extingue nascentes e deixa atrás de si extensas áreas de difícil recuperação para outros usos. Basta olhar ao redor, inocente leitor(a). Onde havia extensões sem fim de mata atlântica com suas fontes e regatos murmurantes, índios, aves e onças, há hoje o tédio das colinas de pasto inútil e sem fim, entrecortado por um condomínio aqui, uma fábrica ali. Carvão, cana, café, Boi, soja e seca, os males do Brasil são. E ainda há quem ache que os índios é que eram ingênuos por trocar pau-brasil por espelhinhos e contas coloridas.

- A culinária vegana e orgânica é uma opção viável em larga escala? (foto: Jennifer / Flickr / CC BY 2.0)
Contas que não fecham
Se o agronegócio brasileiro é uma máquina que avança, consumindo matas, gerando lucros de curto prazo e deixando um rastro de terras degradadas atrás de si, sua Excelência, o Boi (e família) é um dos principais responsáveis. É assim há muito tempo. Afinal, estivessem dedicados à extração de pau-brasil, esmeraldas, ouro, açúcar, café ou soja, os senhores e os colonos da colônia, assim como os da democracia, sempre quiseram ter carne à mesa. A carne é riqueza e poder – sempre teve assento ou trono garantido nos fóruns que decidem o que importa. E o que se exporta, claro.
Carne e latifúndio sempre andaram abraçados no Brasil, ora direis, vocação inevitável destes solos pobres que requerem muita área para pouco bife, não é mesmo, foram os cientistas que disseram. Aliás, eles também disseram que áreas degradadas pela pecuária são muito mais difíceis e caras de recuperar e que provocam 22 vezes mais impacto ambiental do que receita, em reais.
Em tempos de seca persistente, cabe perguntar: já não teríamos passado da hora de nos tornarmos vegetarianos?
Para pensar na cama: as pastagens da pecuária brasileira ocupam 200 milhões de hectares, gerando produtos e serviços que representam 6,8% do PIB. A agricultura representa 14,56% do mesmo PIB e ocupa um terço da área da pecuária, gerando mais empregos, maior segurança alimentar e menor impacto ambiental. Em tempos de seca persistente, cabe perguntar: já não teríamos passado da hora de nos tornarmos vegetarianos?
Falando sério, andei comendo em restaurantes veganos/orgânicos apresentados por minha filha adolescente e fiquei muito surpreso com o sabor, o frescor, a beleza e leveza da comida. A proteína animal não fez a menor falta – e olha que sou um carnívoro/piscívoro assumido e contumaz. E a conta não doeu.
É mercado de nicho, frescura de hipster de boutique, não é possível expandir em escala global? Quem disse? Alguém já tentou? Aguardo ansioso os comentários dos leitores. Enquanto isso, continuo produzindo tomate-cereja na varanda de casa, sem adubo, sem veneno, sem trabalho nem praga. Docinho. Já comi uma dúzia, há mais duas a caminho. É pouco, mas é só o começo. Esse troço vicia...
Substituto do sangue
FONTE - http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2015/329/em-busca-de-um-substituto-para-o-sangue
Durante toda a história humana, o sangue tem sido relacionado à vida e à vitalidade. Já na Bíblia é dito que “o sangue é a vida” (Deuteronômios 12: 23). Mas a descoberta da circulação sanguínea ocorreu apenas em 1628, pelo médico britânico William Harvey (1578-1657), e o uso terapêutico do sangue é ainda mais recente. Somente no início do século 19 foi feita a primeira transfusão de sangue humano, atribuída ao médico inglês James Blundell (1791-1879). Até o início do século 20, os resultados obtidos com as transfusões foram, em geral, catastroficamente negativos.
Apenas na década de 1920, isto é, há menos de 100 anos, os três maiores riscos associados a transfusões foram efetivamente controlados: a coagulação sanguínea, a infecção e a incompatibilidade dos grupos sanguíneos. O controle deste último fator de risco deve-se às pesquisas feitas pelo médico austríaco Karl Landsteiner (1868-1943), que classificou diferentes tipos sanguíneos, atribuindo-lhes as letras A B e O (o que ficou conhecido como sistema ABO) – trabalho que lhe rendeu o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1930. Posteriormente, descobriu o fator Rh, que complementa a classificação do sangue e também está relacionado a problemas de incompatibilidade nas transfusões.
Ao longo da história, muitas substâncias foram investigadas como substitutos ao sangue humano para uma de suas funções: o transporte de oxigênio. Entre elas, estão o leite, o vinho, a cerveja, o ópio, soluções salinas, o sangue animal etc.
Apesar de comum, o termo ‘substituto sanguíneo’ é evidentemente incorreto, uma vez que, até a presente data, não existem fluidos capazes de realizar todas as funções sanguíneas, excetuando-se o próprio sangue.
Apesar de salvar muitas vidas, a transfusão de sangue apresenta muitas preocupações, não apenas relacionadas aos eventos adversos da terapêutica, mas também a questões logísticas, econômicas e sociais
Esse fato é reconhecido pelo médico norte-americano William Amberson, que, em sua revisão publicada em 1937, escreve: “O sangue de vertebrados é o fluido mais complexo encontrado no mundo dos organismos vivos. É composto por dezenas de ingredientes essenciais e realiza uma multiplicidade de atividades; sendo o carreador fluido de uma variedade de substâncias químicas e integrações de funções hormonais, bem como a fonte de alimento e oxigênio para todos os tecidos, ele desafia a síntese laboratorial. É elementar o reconhecimento da inexistência de um substituto completo para o sangue. Entretanto, biólogos e fisiólogos, assim como os clínicos, deparam-se frequentemente com situações nas quais o sangue não pode ser obtido, ou em que o problema em questão somente pode ser resolvido com uma simplificação de condições, de forma que um substituto sanguíneo tem se tornado uma das maiores necessidades para os laboratórios experimentais”.
Urgência atual
A necessidade apontada em 1937 ainda persiste e é agravada por eventos recentes, como o aumento da expectativa de vida e consequente envelhecimento populacional, o desenvolvimento da medicina, o aumento dos custos relativos às bolsas de sangue etc. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são feitos aproximadamente 92 milhões de doações por ano no mundo, sendo metade realizada em países desenvolvidos, que representam cerca de 15% da população mundial.
Adicionalmente, cerca de 65% das doações e coletas mundiais de sangue estão concentrados em apenas 10 países: Estados Unidos, China, Índia, Japão, Alemanha, Rússia, Itália, França, Coreia do Sul e Reino Unido. Considerando a estimativa de usoper capita de sangue para os Estados Unidos, que é de 1 unidade a cada 25 pessoas, calcula-se um déficit anual de mais de 200 milhões de unidades de sangue, caso o mundo tivesse o mesmo nível de qualidade em saúde.
Considerando a estimativa de usoper capita de sangue para os Estados Unidos, que é de 1 unidade a cada 25 pessoas, calcula-se um déficit anual de mais de 200 milhões de unidades de sangue
Apesar de salvar muitas vidas, a transfusão de sangue apresenta muitas preocupações, não apenas relacionadas aos eventos adversos da terapêutica, mas também a questões logísticas, econômicas e sociais. Do ponto de vista terapêutico, as transfusões de sangue implicam, além do risco de incompatibilidade, transmissão de micro-organismos patogênicos, diminuição da capacidade de defesa do organismo, lesão pulmonar aguda, reações hemolíticas (que causam rompimento dos glóbulos vermelhos), aumento do risco de morte (proporcional ao volume sanguíneo infundido) e reação inflamatória sistêmica aguda, entre outros.
A manutenção do sistema de bancos de sangue é outro desafio a ser enfrentado. Especialmente após o advento da epidemia de Aids em 1980, os bancos de sangue e as transfusões como um todo sofreram grandes impactos. Ao se verificar a possibilidade de propagação da Aids por meio de transfusões, desenvolveram-se intensas críticas e questionamentos quanto à eficácia e segurança do uso de sangue, que perduram, com razão, até hoje.
Com a percepção de novos riscos e a insurgência de novas análises, maiores custos são envolvidos na coleta e maior número de unidades de sangue é descartado por não atender aos novos padrões de qualidade. A OMS estima que 1,6 milhão de unidades de sangue foram descartadas em 2008 devido à presença de marcadores de infecção para doenças transmissíveis por transfusão, como Aids, hepatites B e C e sífilis. E, apesar da drástica redução da chance de transmissão dessas doenças observada em países ricos, naqueles considerados pobres esse risco ainda é bastante alto. A OMS aponta que, em 2011, 39 dos seus países-membros não realizavam rotineiramente no sangue doado testes para Aids, hepatites B e C e sífilis, um fato extremamente alarmante.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Biologia e paternidade
A Ciência da paternidade e como os filhos mudam o cérebro dos papais
Por muito tempo, pesquisadores acreditavam que apenas a relação entre mães e filhos tinham influência na formação das crianças e como elas iriam se comportar quando se tornassem adultos. Porém, nas últimas décadas, mais e mais evidências mostram que os pais são tão importantes quanto às mães na criação dos filhos.
Possivelmente, a ideia de que as mães é quem criam os filhos e os pais não tinham nenhuma relação seria resultado do machismo, em que as mulheres ficavam em casa cuidando da prole, enquanto o homens saiam para trabalhar e dar sustento para a família.
O que realmente acontece é que a paternidade é um evento muito importante na vida dos homens, chegando a mudar a forma de como o cérebro funciona nos papais. Estes estudos botaram por terra a ideia de que os pais não são necessários e também não criam vínculos fortes com seus filhos. Aqui estão os exemplos do porquê eles importam.

O cérebro do pai é igual ao da mãe
Cuidar de uma criança definitivamente muda o funcionamento do cérebro de um homem. Isso readapta o cérebro dos pais, sejam eles biológicos ou não, que começam a apresentar o mesmo padrão de respostas emocionais e cognitivos que as mães.
Em um estudo com mais de 80 voluntários, os pesquisadores observaram as reações em diversas áreas do cérebro de homens (heterossexuais e homossexuais) que eram ativamente presentes na criação de crianças e também de mães nas mesmas condições.
Os hormônios dos papais também mudam durante a gravidez e o nascimento
O resultado desta pesquisa mostrou que, independente do sexo, ambos os cérebros funcionavam da mesma forma, em que as mesmas partes do órgão do sistema nervoso central eram ativadas quando estes voluntários assistiam vídeos de seus filhos brincando. Estas áreas estão ligadas às respostas emocionais e também da cognição, que nos faz ser indivíduos sociais que vivem em grupos.
As mães passam por mudanças drásticas quando vão ter seus filhos e durante a amamentação. Os hormônios como estrógeno, progesterona, prolactina, oxitocina e alguns glicocorticoides começam a ser produzidos em grande quantidade. Mas quem disse que os pais também não passam por isso?
Um estudo identificou que as mesmas mudanças no padrão hormonal que acontece com as mães, também está presente entre os pais. E não são apenas de humanos, mas de outros mamíferos também. O que os pesquisadores encontraram que o contato de mães e filhotes influenciam na produção de hormônios dos pais, especialmente da oxitocina, que é responsável pelo vínculo e afeição entre indivíduos.

Os pesquisadores encontraram também que, depois de terem seus filhos, os pais humanos sofrem de redução na produção do hormônio sexual testosterona. Os cientistas acham que esta redução está vinculada à diminuição do comportamento agressivo e aumento do cuidado com as crianças.
Isto não foi observado em roedores. Neles, a testosterona aumenta, o que levou os pesquisadores a considerarem que o aumento da testosterona nestes animais está ligado ao aumento da proteção contra possíveis predadores dos filhotes.
Filhos são perfeitos para a produção de mais neurônios
Ter filhos é muito importante para qualquer indivíduo. A nova vida que aparece dentro de uma família cria novas experiências para os mais diversos animais, algo que os pesquisadores de comportamento chamam de enriquecimento ambiental.
As novas experiências possibilitam um aumento na percepção de vários sentidos, principalmente em relação ao cheiro, com a produção de mais células nervosas no bulbo olfatório em ratos que se tornaram pais e mães recentemente. Outra mudança acontece no hipocampo, responsável pela memória e percepção espacial.

Além disso, outras pesquisas revelaram que pais humanos também começam a expressar um reconhecimento maior em relação aos seus filhos assim como as mães. O famoso “instinto materno”, que faz com que as mães sintam qualquer problema com os filhos, também é encontrado nos pais. Testes mostraram que eles são tão bons como elas para identificarem o choro das suas crianças, por exemplo.
Fonte: Live Science
terça-feira, 26 de maio de 2015
James Lovelock, pessimista ou realista?
Fonte - http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/james-lovelock-pessimista-ou-realista
Em sua coluna de abril, Jean Remy Guimarães fala sobre as previsões desse famoso cientista inglês, que acredita ser inevitável um aquecimento global bem maior do que o estimado hoje, com consequências drásticas para a humanidade.
Por: Jean Remy Davée Guimarães
Publicado em 24/04/2015 | Atualizado em 24/04/2015
Entre as contribuições do cientista inglês James Lovelock (1919-) está a formulação da chamada hipótese Gaia, que vê a Terra como um superorganismo que se autorregula. (foto: Jonathan Cobb/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)
O cientista inglês James Lovelock é bastante conhecido como proponente da chamada hipótese Gaia, que defende que a Terra age como um superorganismo e, portanto, se autorregula. Embora tenha bom suporte científico em evidências e modelos, essa hipótese foi fortemente combatida por cientistas de várias áreas durante 25 anos, e apenas os climatologistas a consideraram útil. Atualmente, é mais aceita, mas, por mais interessante que seja, não é o tema central desta coluna.
Essas e muitas outras contribuições experimentais ou teóricas fazem com que James Lovelock seja considerado um dos pais do despertar ambientalista dos anos 1960
O auê em torno da hipótese Gaia ofuscou outra parte da biografia desse cientista, muito interessante e produtiva, que incluiu, nos anos 1950, o desenvolvimento de detectores de captura de elétrons, que, acoplados a cromatógrafos a gás, permitiram aumentar consideravelmente a sensibilidade dos mesmos. Isso permitiu quantificar resíduos de pesticidas no ambiente e em alimentos, evidenciando sua ampla dispersão ambiental, assim como medir os níveis atmosféricos dos famosos CFCs (clorofluorocarbonetos), responsáveis pela ampliação do buraco de ozônio em altas latitudes. Essas e muitas outras contribuições experimentais ou teóricas fazem com que James Lovelock seja considerado, assim como Raquel Carson – autora do livro Primavera Silenciosa –, um dos pais do despertar ambientalista dos anos 1960.
Isso não o impede de defender com fleuma tipicamente britânica ideias que enfurecem muitos ambientalistas, como a de que já ultrapassamos os limites de emissão de carbono que permitiriam a autorregulação do clima, o que torna o aquecimento inevitável; de que devemos aderir maciçamente à geração de energia por via nuclear; de que energias alternativas como eólica e solar não nos salvarão; de que as previsões do IPCC são otimistas demais.
Segundo ele, até 2040, o Saara invadirá a Europa, e Berlim (Alemanha) será tão quente quanto Bagdá (Iraque) hoje. Phoenix (EUA) e Beijing (China) se tornarão lugares inabitáveis, invadidos pelo deserto. Miami (EUA) e Londres (Inglaterra) idem, mas por causa da elevação do nível do mar e de enchentes. Lovelock sugere admitir que Nova Orleans (EUA) e todo o Bangladesh não têm futuro e que o melhor a fazer é organizar a migração para outras áreas.

- Segundo Lovelock, até 2040, a paisagem do Saara invadirá a Europa; Phoenix (EUA) e Beijing (China) também serão invadidos pelo deserto e se tornarão lugares inabitáveis. (foto: Carlos Reis/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
Não vai ser fácil, porque já tem gente lá. Mas o aquecimento e a fome decorrente empurrarão milhões de pessoas para o norte, elevando as tensões políticas. Lovelock prevê que, até 2100, América do Norte e Europa sofrerão aquecimento de 8 ºC, o dobro do que prevê o IPCC. “Os chineses não terão para onde ir além da Sibéria”, sentencia Lovelock. “O que os russos vão achar disso? Sinto que uma guerra entre a Rússia e a China seja inevitável.”
Migrações, epidemias, colapso
Com as dificuldades de sobrevivência e as migrações em massa, virão as epidemias. Até 2100, a população da Terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes – Canadá, Islândia, Escandinávia, bacia ártica.
Até 2100, a população da Terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes
Mas, Dr. Lovelock, desculpe, o Sr. não comentou nada sobre as altas latitudes do sul, só sobre as do norte. Consulte o mapa-múndi e concluirá que não foi esquecimento, só misericórdia. De fato, a zona temperada vai se deslocar para ambos os polos, equitativamente, mas, no caso do hemisfério Sul, ela ocupará a ponta da Patagônia na América do Sul e mais nada, já que simplesmente não há outras terras emersas nesse futuro círculo temperado. Vamos cobrir o mar com balsas para plantar comida dentro? Taí, nova oportunidade de negócios.
Lovelock considera que Gaia encontrará novo equilíbrio e que nossa civilização, como conhecemos até aqui, é a que corre perigo.
“Eu gostaria de poder dizer que turbinas de vento e painéis solares vão nos salvar”, comenta Lovelock. “Mas não posso. Não existe nenhum tipo de solução possível. Hoje, há quase 7 bilhões de pessoas no planeta, isso sem falar nos animais. Se pegarmos apenas o CO2 de tudo que respira, já são 25% do total emitido – quatro vezes mais CO2do que todas as companhias aéreas do mundo liberam. Então, se você quer diminuir suas emissões, é só parar de respirar. É apavorante. Simplesmente ultrapassamos todos os limites razoáveis em números. E, do ponto de vista puramente biológico, qualquer espécie que faz isso tem que entrar em colapso.”

- Lovelock não acredita que o uso de energias alternativas como a eólica e a solar possa impedir a crise que está se instalando. (foto: Alex Abian/ Flickr – CC BY-NC-ND-2.0)
Situação de guerra
Lovelock compara a situação atual com a de 1939, em que, apesar da óbvia ameaça de guerra, ninguém parecia se dar conta do que estava em jogo e ainda se falava em conciliação até a véspera do conflito. Lovelock traça um paralelo entre a falta de liderança política de então e a da atualidade. “Em muito pouco tempo, estaremos vivendo em um mundo desesperador, comenta ele.
Lovelock acredita que está mais do que na hora de uma versão ‘aquecimento global’ do famoso discurso que Winston Churchill fez para preparar a Grã-Bretanha para a Segunda Guerra Mundial: “Não tenho nada a oferecer além de sangue, trabalho, lágrimas e suor. As pessoas estão prontas para isso, a população entende o que está acontecendo muito melhor do que a maior parte dos políticos.”
Difícil contestar o veterano cientista quando vemos a obsessão negacionista de nossas autoridades na condução da crise hídrica no Sudeste brasileiro, anunciada já em fins de 2013.
A migração em massa já está em andamento, mata mais do que o atentado às Torres Gêmeas, só que todo ano, e o Mediterrâneo é o seu túmulo
Difícil também não lembrar de Lovelock quando assistimos à repetição dos naufrágios de embarcações precárias lotadas de refugiados que tentam desesperadamente chegar à Europa. Só em quatro meses de 2015, eles já causaram 1.654 mortes, metade das ocorridas em 2014. A migração em massa já está em andamento, mata mais do que o atentado às Torres Gêmeas, só que todo ano, e o Mediterrâneo é o seu túmulo. Assim como em 1939, a Europa está dividida e não sabe como lidar com a situação.
A generalização e radicalização de conflitos é outra previsão de Lovelock. Previsão ou constatação? Pegue de novo o mapa-múndi e liste os países e regiões onde você poderia levar a família a passeio se tivesse grana. Concluirá que o mundo está encolhendo, e rápido.
O mesmo exercício aplicado a sua cidade e seu estado talvez lhe provoque a mesma incômoda sensação. A diferença é que, nessa escala, você talvez ainda possa fazer alguma coisa. Ou não, sei lá...
De qualquer modo, recomendo a leitura da entrevista integral de James Lovelock a Jeff Goodell, e dos vários documentos disponíveis na internet sobre esse notável cientista-cidadão.
Afinal, os detectores que ele desenvolveu nos anos 1950 continuam entre os mais sensíveis até hoje.
Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
A cracolândia dos polinizadores?
Estudos internacionais apontam que os neonicotinoides, inseticidas muito usados na agricultura, podem viciar abelhas e reduzir o crescimento de suas colônias. O tema é discutido por Jean Remy Guimarães em sua coluna de maio.
Por: Jean Remy Davée Guimarães
Publicado em 25/05/2015 | Atualizado em 25/05/2015
Estudo publicado na ‘Nature’ indica que inseticidas neonicotinoides têm efeito viciante sobre as abelhas. (foto: Kim Seng/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)
A vida anda mesmo dura para os fabricantes de pesticidas. Não bastasse a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter recentemente classificado o glifosato, herbicida mais vendido no Brasil e no mundo, como possivelmente cancerígeno – o que foi tema dacoluna de março –, dois trabalhos publicados este mês na prestigiosa Natureevidenciam os impactos negativos dos inseticidas neonicotinoides, largamente utilizados na agricultura, sobre as abelhas.
Em coluna anterior, eu já havia descrito estudos de campo ingleses e franceses que demonstravam que a exposição a concentrações realistas de neonicotinoides deixava abelhas e zangões desorientados, fazendo com que 30% do efetivo da colmeia não retornasse à mesma no fim do dia, reduzindo a produção de rainhas e o tamanho da colônia.
Desta vez, os neonicotinoides são suspeitos de deixar as abelhas viciadas... em neonicotinoides. O nome dessa classe de inseticidas não é coincidência; eles têm de fato estrutura química semelhante à da nicotina e podem estimular os centros de recompensa das abelhas da mesma forma que a nicotina em humanos. O efeito viciante de neonicotinoides em ratos já havia sido demonstrado em 2012 por pesquisadores japoneses.
Esses inseticidas têm de fato estrutura química semelhante à da nicotina e podem estimular os centros de recompensa das abelhas da mesma forma que a nicotina em humanos
Agora os autores de um artigo publicado naNature verificaram que abelhas não só não evitam alimentos com neonicotinoides como preferem estes em relação aos que não contêm o pesticida, o que reduz sua ingestão total de alimento.
Os resultados desmontam o argumento – não comprovado – usado pelos fabricantes para contrapor os estudos anteriores que já apontavam a nocividade dessa classe de inseticidas para abelhas e outros generosos polinizadores. Segundo eles, as abelhas seriam espertas e evitariam os cultivos tratados, reduzindo assim sua exposição (ao custo de deixar de polinizá-los, supõe-se). Mas, infelizmente, se alguns dos sensores das abelhas não detectam a presença dos neonicotinoides, outros percebem muito bem seu canto mavioso e a promessa de prazer, ou fugaz alívio da dor da abstinência. (Alô, fumantes e outros dependentes químicos, isso soa familiar?)
Que mania a indústria tem de inventar produtos viciantes! O fast-food é nocivo e viciante. Os psicotrópicos, idem. Agora temos pesticidas que viciam suas vítimas pretendidas e as outras também. Aguardo ansioso por estudos que investiguem se os neonicotinoides provocam adição em humanos, assim como provocam em abelhas e ratos.
Não duvido que depois de estrilarem como de costume, os fabricantes acabem revertendo essas evidências a seu favor. Já posso imaginar os slogans explorando a atração irresistível das pragas pela toxina que vai matá-las. Pelo menos até desenvolverem resistência ao produto. Que beleza, inventamos a zoocracolândia rural! Nada detém o progresso.
Extermínio de populações
Enquanto isso, um segundo estudo da Nature mostrou que o tratamento de sementes de plantas com flores com o inseticida Elado, que contém uma combinação de um neonicotinoide (clothianidin) e um piretroide (β-cyfluthrin), teve sérias consequências para abelhas selvagens, reduzindo a densidade das colônias, bem como seu crescimento, tudo isso nas chamadas condições de campo, em que a intensidade da exposição e suas vias são semelhantes àquelas vigentes rotineiramente em cultivos reais.

- O tratamento de sementes de plantas com flores com um inseticida que contém um neonicotinoide reduziu a densidade e o crescimento de colônias de abelhas selvagens. (foto: Jordan Schwartz/ Flickr – CC BY 2.0)
Os estudos em questão ganharam razoável destaque na imprensa estrangeira (esqueça a local, incorrigível), porque a Comunidade Econômica Europeia aprovou uma moratória sobre o uso de certos neonicotinoides na agricultura. A moratória foi pesadamente criticada pelo governo inglês, que a acusa de não ser baseada em evidências científicas suficientes e prefere ir na onda de um relatório da Fera (Food and Environment Research Agency), agência inglesa para pesquisa sobre alimentos e meio ambiente.
Os resultados apresentados no relatório dizem basicamente o contrário das conclusões do mesmo, um caso inédito de bipolaridade bibliográfica
O problema é que a Fera não só é mansa como também míope. O tal relatório não passou pelo crivo anônimo dos pares, como acontece com um artigo científico que se preze, já que é apenas um relatório, e vale tanto quanto a agência governamental que o escreveu e os políticos que o sancionaram (aaaaai, que medo!).
Mas cientista é bicho chato. Dave Goulson, professor de biologia na Universidade de Sussex, Inglaterra, também teve medo e resolveu ir à fonte e passar o pente fino no texto. Ele concluiu (está sentado?) que os resultados apresentados no relatório dizem basicamente o contrário das conclusões do mesmo, um caso inédito de bipolaridade bibliográfica que só passou desapercebido pelos atribulados legisladores ingleses devido ao efeito aditivo (com trocadilho, por favor) das generosas contribuições de campanha, sejam de que origem forem.
Não sei não, mas deve ser terrível viver num país onde coisas assim acontecem.
Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
terça-feira, 12 de maio de 2015
SÍNDROME DE GUILLAIN-BARRÉ
DOENÇAS E SINTOMAS
SÍNDROME DE GUILLAIN-BARRÉ
A síndrome de Guillain-Barré, também conhecida por polirradiculoneuropatia idiopática aguda ou polirradiculopatia aguda imunomediada, é uma doença do sistema nervoso (neuropatia) adquirida, provavelmente de caráter autoimune, marcada pela perda da bainha de mielina e dos reflexos tendinosos. Ela se manifesta sob a forma de inflamação aguda desses nervos e, às vezes, das raízes nervosas.
O processo inflamatório e desmielizante interfere na condução do estímulo nervoso até os músculos e, em parte dos casos, no sentido contrário, isto é, na condução dos estímulos sensoriais até o cérebro.
Em geral, a moléstia evolui rapidamente, atinge o ponto máximo de gravidade por volta da segunda ou terceira semana e regride devagar. Por isso, pode levar meses até o paciente ser considerado completamente curado. Em alguns casos, a doença pode tornar-se crônica ou recidivar.
Causas
Não se conhece a causa específica da síndrome. No entanto, na maioria dos casos, duas ou três semanas antes, os portadores da síndrome manifestaram uma doença aguda provocada por vírus (citomegalovírus, Epstein Barr, da gripe e da hepatite, por exemplo) ou bactérias (especialmente Campylobacter jejuni ). A hipótese é que essa infecção aciona o sistema de defesa do organismo para produzir anticorpos contra os micro-organismos invasores. No entanto, a resposta imunológica é mais intensa do que seria necessário e, além do agente infeccioso, ataca também a bainha de mielina dos nervos periféricos.
Cirurgias, vacinação, traumas, gravidez, linfomas, gastrenterite aguda e infecção das vias respiratórias altas podem ser consideradas outras causas possíveis da polirradiculoneuropatia aguda.
Sintomas
O sintoma preponderante da síndrome de Guillain-Barré é a fraqueza muscular progressiva e ascendente, acompanhada ou não de parestesias (alterações da sensibilidade, como coceira, queimação, dormência, etc.), que se manifesta inicialmente nas pernas e pode provocar perdas motoras e paralisia flácida. Com a evolução da doença, a fraqueza pode atingir o tronco, braços, pescoço e afetar os músculos da face, da orofaringe, da respiração e da deglutição.
Em número menor de casos, o comprometimento dos nervos periféricos pode produzir sintomas relacionados com o sistema nervoso autônomo, como taquicardia, oscilações na pressão arterial, anormalidades na sudorese, no funcionamento dos intestinos e da bexiga, no controle dos esfíncteres e disfunção pulmonar.
Os sintomas regridem no sentido inverso ao que começaram, isto é, de cima para baixo.
Diagnóstico
O diagnóstico tem como base a avaliação clínica e neurológica, a análise laboratorial do líquido cefalorraquiano (LCR) que envolve o sistema nervoso central, e a eletroneuromiografia.
É muito importante estabelecer o diagnóstico diferencial com outras doenças autoimunes e neuropatias, como a poliomielite e o botulismo, que também podem provocar déficit motor.
Tratamento
O tratamento da síndrome conta com dois recursos: a plasmaférese (técnica que permite filtrar o plasma do sangue do paciente) e a administração intravenosa de imunoglobulina para impedir a ação deletéria dos anticorpos agressores. Exercícios fisioterápicos devem ser introduzidos precocemente para manter a funcionalidade dos movimentos.
Medicamentos imunosupressores podem ser úteis, nos quadros crônicos da doença.
Importante: A síndrome de Guillain-Barré deve ser considerada uma emergência médica que exige internação hospitalar já na fase inicial da evolução. Quando os músculos da respiração e da face são afetados, o que pode acontecer rapidamente, os pacientes necessitam de ventilação mecânica para o tratamento da insuficiência respiratória.
Recomendações
Esteja atento às seguintes considerações:
* Em grande parte dos casos, a síndrome de Guillain-Barré é um distúrbio autolimitado. No entanto, o paciente deve ser levado imediatamente para o hospital assim que apresentar sintomas que possam sugerir a doença, porque pode precisar de atendimento de urgência;
* Como ainda não foram determinadas as causas da doença, não foi possível também estabelecer as formas de preveni-la;
* O processo de recuperação da síndrome, em geral, é vagaroso, mas o restabelecimento costuma ser completo;
* É muito pequeno o número de casos da síndrome em que a causa pode ser atribuída à vacinação, em geral, contra gripe e meningite. Por isso, as pessoas devem continuar tomando essas vacinas normalmente;
* A fisioterapia é um recurso fundamental especialmente para o controle e reversão do déficit motor que a síndrome pode provocar.
Fonte - http://drauziovarella.com.br/clinica-geral/sindrome-de-guillain-barre/
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