domingo, 27 de abril de 2014

Estudo sobre picada da jararaca ajuda a entender mecanismos da hemorragia

25/04/2014
Por Fabio Reynol

Lesão provocada no local de inoculação do veneno pode estimular liberação de proteína que desempenha papel fundamental na coagulação sanguínea (foto: divulgação):

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Agência FAPESP – Há muito se sabe que o envenenamento provocado por serpentes como a jararaca (Bothrops jararaca) pode causar danos aos tecidos ao redor do local da picada e estimular um quadro de hemorragia. Entender as causas desses efeitos, a sua etiologia, no entanto, é um desafio complexo.
É o que conta o médico veterinário Marcelo Larami Santoro, pesquisador do Instituto Butantan, em São Paulo, que conduziu o projeto “Importância da lesão local induzida por metaloproteinases de venenos ofídicos na indução de plaquetopenia em envenenamentos” de 2011 a 2013 com o apoio FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa - Regular.
“Na maioria das ocorrências, o soro antiofídico é eficaz para tratar as picadas de jararaca; em casos mais graves, porém, pode ocorrer uma hemorragia muito intensa que deve receber tratamento específico”, disse o pesquisador.
Para entender como o veneno da jararaca afeta o sistema de coagulação e as plaquetas (células que ajudam a controlar a perda de sangue), foram feitos experimentos em ratos utilizando duas vias de inoculação, a subcutânea e a intravenosa. Com isso, procurou-se verificar a importância da lesão local na indução da plaquetopenia (redução da contagem de plaquetas no sangue) e das alterações do sistema de coagulação.
O estudo também testou a importância das duas principais classes de toxinas presentes no veneno, as metaloproteinases e as serinaproteinases; para isso, o veneno da jararaca foi incubado, antes de ser injetado nos animais, com inibidores apropriados. O objetivo da incubação do veneno é promover a inibição de determinadas enzimas. Como já se sabe, ambas as classes apresentam atividade anti-hemostática, ou seja, impedem a detenção da perda sanguínea, reação que ocorre quando o organismo tenta inibir uma hemorragia.
De acordo com os resultados, as duas classes de toxinas não estão diretamente envolvidas na origem da plaquetopenia induzida pelo veneno da jararaca, o que suscitou a conclusão de que outros mecanismos ou toxinas do veneno devam ser responsáveis pela redução das plaquetas. No entanto, as metaloproteinases do veneno se mostram essenciais para o desenvolvimento dos distúrbios da coagulação. Essa evidência contesta uma opinião difundida ao longo dos anos entre médicos e cientistas, de que as serinaproteinases são as toxinas mais importantes para o consumo do fibrinogênio, proteína envolvida no processo de coagulação sanguínea e cuja diminuição no sangue favorece o quadro hemorrágico decorrente da picada da jararaca.
Outro dado importante levantando foi que a lesão provocada no local da inoculação do veneno pode estimular a liberação de fator tissular na circulação sanguínea. Conhecido também como tromboplastina, o fator tissular é uma substância presente em tecidos, monócitos e plaquetas que desempenha um papel fundamental na coagulação sanguínea.
“O aumento do fator tissular na circulação torna a ação do veneno mais potente, aumentando os danos nos tecidos ao favorecer a coagulopatia, que são distúrbios de coagulação”, acrescentou Santoro, ressaltando que o estudo da ação dos venenos ofídicos ao longo do século XX ajudou a ciência a descobrir os mecanismos da coagulação sanguínea.
O artigo Bothrops jararaca venom metalloproteinases are essential for coagulopathy and increase plasma tissue factor levels during envenomation, descrevendo todos esses resultados, será publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.
Parceria com Argentina
O projeto contou com a participação da pesquisadora María Elisa Peichotto, da Universidad Nacional del Nordeste (NDDE) da Argentina. O trabalho foi aprovado na chamada do acordo de cooperação científica assinado em 2010 entre a FAPESP e o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas de la República Argentina (Conicet).
A pesquisadora argentina é a autora principal de um artigo científico desenvolvido durante o projeto, Inflammatory effects of patagonfibrase, a metalloproteinase fromPhilodryas patagoniensis (Patagonia Green Racer; Dipsadidae) venom, publicado no periódico Experimental Biology and Medicine.
A parceria com o país vizinho ainda colaborou para a realização da primeira Jornada “Investigación biomédica de animales venenosos de la selva paranaense”, realizada em maio de 2013 na cidade argentina de Puerto Iguaçu.
Outro fruto importante do projeto foi a pesquisa de mestrado “Patogênese dos distúrbios hemostáticos sistêmicos induzidos pelo veneno da serpente Bothrops jararaca”, da estudante Karine Miki Yamashita, apoiada por uma bolsa FAPESP.
Santoro pretende agora continuar a investigação sobre o fator tissular e os mecanismos envolvidos com ele. “Conhecendo-o melhor poderemos colaborar para combater a sua ação nos casos de envenenamento”, diz.

Células Milagrosas

Cientistas clonam células adultas e criam células-tronco embrionárias

Técnica foi aplicada por laboratório privado e financiada pela Coreia do Sul.
Método é considerado avanço para a medicina regenerativa.


Cientistas americanos conseguiram pela primeira vez clonar células adultas humanas para criar células-tronco embrionárias, cujo DNA corresponde ao do doador. Tal fato é considerado um grande avanço para a medicina regenerativa e o tratamento de doenças incuráveis.
Como parte do estudo, os pesquisadores usaram a técnica desenvolvida pelo Dr. Shoukhrat Mitalipov, o primeiro a criar em 2013 células-tronco embrionárias humanas a partir de células da pele. Mas para estes testes de clonagem foram utilizadas amostras de DNA de um bebê de oito meses.
A nova técnica, publicada na revista americana "Cell Stem Celle", foi conduzida pelo Advanced Cell Technology e financiada em parte pelo governo sul-coreano. A equipe liderada pelo Dr. Robert Lanza utilizou o núcleo das células da pele de dois homens de 35 e 75 anos, que foram transferidas para oócitos (óvulos imaturos) humanos de doadores, cujo núcleo havia sido retirado previamente.
Recuperação de órgãos danificados
Os oócitos geraram então embriões primitivos. Foi a partir destas células estaminais embrionárias que o DNA semelhante ao dos doadores foi produzido.
"Até agora não havíamos sido capazes de clonar células adultas para criar células-tronco embrionárias", afirmaram os autores, cujo sistema tem a vantagem de não usar embriões fertilizados, uma técnica que gera dilemas éticos ou forte oposição da Igreja.
A comunidade científica tem depositado as suas esperanças na clonagem terapêutica, que poderia eventualmente substituir os órgãos danificados pelo câncer, cegueira ou Alzheimer.

Tecnologia do BEM

'Olho biônico' devolve visão parcial a portadores de doença degenerativa

Câmera ligada a células da retina permite que pacientes enxerguem.
Retinite pigmentosa faz perder a visão progressivamente.

Roger Pontz testa o 'olho biônico' em clínica no Kellogg Eye Center (Foto: AP)Roger Pontz testa o 'olho biônico' em clínica no Kellogg Eye Center (Foto: AP)
Roger Pontz lentamente perdeu a visão devido a uma doença degenerativa do olho. Depois que ele foi diagnosticado com retinite pigmentosa como adolescente, Pontz ficou quase completamente cego.
Agora, graças a um procedimento de alta tecnologia que envolve a implantação cirúrgica de um “olho biônico",  ele se recuperou o suficiente para ver com limitações sua esposa, neto e gato de estimação.
Equipamento estimula células da retina que ainda funcionam (Foto: AP)Equipamento estimula células da retina que ainda
funcionam (Foto: AP)
"É maravilhoso . É emocionante ver algo novo a cada dia", disse Pontz durante uma entrevista recente no Kellogg Eye Center da Universidade de Michigan. Este centro médico na cidade de Ann Arbor, foi palco das únicas quatro cirurgias deste tipo aprovadas pela Administração para Drogas e Alimentos (FDA).
Retinite pigmentosa é uma doença hereditária que provoca queda lenta e progressiva da visão devido a uma perda progressiva das células sensíveis à luz chamadas bastonetes e cones, que ficam na retina .
Os pacientes têm perda da visão periférica , deixam de enxergar à noite e , em seguida, perdem a chamada visão de túnel , deixando-os  quase cegos.
Nos Estados Unidos , nem todas as cerca de 100 mil pessoas que têm retinite pigmentosa podem se beneficiar de um olho biônico. Segundo estimativas, cerca de 10.000 pessoas têm uma visão muito limitada, disse o Dr. Brian Mech, executivo do fabricante do equipamento, a Second Sight Medical Products Inc. , localizada em Sylmar , na Califórnia. Deste número, 7.500 são candidatos a cirurgia.
O implante artificial no olho esquerdo de Pontz é parte de um sistema que inclui uma câmera de vídeo e um pequeno transmissor alojado em um par de óculos. As imagens da câmera são convertidas em impulsos elétricos transmitidos sem fios a uma rede de eletrodos colocados na superfície da retina.
Os impulsos estimulam as células saudáveis restantes na retina e transmitem o sinal para o nervo ótico. A informação visual , em seguida, viaja para o cérebro, onde é decodificada em padrões de luz que podem ser reconhecidos e interpretados, permitindo ao paciente recuperar alguma função visual.
Ao usar os óculos, que Pontz descreve como seus "olhos", ele pode identificar seu gato ou reconhecer que um flash de luz é o seu neto que vai rapidamente para a cozinha. Pontz diz que o olho biônico "mudou sua vida". “Posso andar pela casa com facilidade. Se isso é tudo que posso conseguir, é fabuloso.
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